sexta-feira, 2 de setembro de 2011

E as minhas memórias...

Tenho uma excelente memória. Lembro de cada coisa com mais precisão do que gostaria. Um sinal verde machucando os olhos em uma noite densa. Uma marcha que engata. Uma tarde nublada. Um vídeo, um filme, uma música. Uma primeira conversa, um sorriso e até mesmo um olhar. Lembrar é saudável, saber por onde se passou é fundamental para não repetir os caminhos mais conturbados. Porém, reter tudo e regurgitar a todo instante é se prender em um círculo do passado. Inútil por não ter passagem para o futuro e desgastante por não solucionar o que se foi.

Ainda sobre minhas lembranças dois pontos são fundamentais. O primeiro é que, felizmente, tendo a lembrar o que de certo modo me preenche a alma. Aquilo que não me magoa, apenas sacia minhas saudades. O que me machuca eu me lembro de lembrar. Servem de sinal de parada, me acordam para o que não desejo mais.

O segundo ponto é o oposto do que tenho afirmado até esta frase. É sobre aquilo que esqueci. Os dias que passei remoendo minhas escolhas, com um nó na garganta, e que agora são uma vaga lembrança. As vezes em que me calei, me anulei, caminhei sem direção. Tenho dificuldade de me lembrar o que conclui de tudo isso, não da dor que me causou. Nesta tarde me peguei pensando sobre tudo que esqueci. O que descobri sobre mim e se perdeu entre as memórias. Deveria ter anotado. Comprado um diário e registrado cada descoberta, como uma adolescente faz antes de dormir. Se não tivesse utilidade para definir que sou, ao menos me renderiam alivio imediato e risadas posteriores. Ou quem sabe, uma biografia póstuma. Uma compilação escrita por quem se ocupa de preocupar-se com minha vida, somada a interpretação do que escrevi. Óbvio, como preza o bom jornalismo, tudo de modo muito imparcial. Garantia de respeito ao defunto.


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